2012 chegou e junto o recomeço, a nova perspectiva, uma chance de poder fazer diferente, melhorar, traçar metas e trilhar novos desafios.
Faço uma reflexão inspirada na final do mundial de clubes, conversas com amigos e um ano novo para o bom futuro do futebol.
Acompanhei a grande e tão esperada final do mundial de clubes entre o melhor da américa, representado pelo Santos, e da Europa, pelo Barcelona. Na semana que precedeu o jogo, confesso que via o Santos campeão, pelo futebol que apresentou durante a campanha, seus ídolos e os boatos tão positivos que a mídia criou.
No rolar da bola, logo nos primeiros minutos, notei que a minha expectativa foi totalmente ingênua, pois o Santos não conseguia a posse de bola, trocar passes, construir jogadas. Nossos heróis assistiam em campo uma equipe tão cadenciada, compacta, antecipada, ágil e coletiva, que até as jogadas mais previsíveis, aquelas que todos veem em replays, games – agora repetiam-se como uma grande brincadeira.
Segundo tempo nada mudou, Muricy, “atualmente o técnico mais vencedor”, assistia ao jogo abatido, assustado, sem nada a fazer. Enquanto isso, a narrativa “global” idolatrava Barcelona, que nos dias anteriores, Santos era o máximo com chances claras de ser campeão, o jeito aqui era desligar o som.
Nas saídas de bolas do Brasil, que costuma ser um tédio, ali estavam três ou quatro do Barcelona marcando… chutões eram a saída mais digna. Barcelona dominava, limpava o lance, não vimos um passe de bola errado ou na “fogueira” para o companheiro. Já o Santos, o jeito foi levantar a cabeça, reconhecer a “superioridade” do Barça e torcer para que o jogo terminasse o mais rápido possível.
O time do Barcelona joga com os atletas vindo de trás, tocando a bola e penetrando na área adversária, seu esquema tático foi 3-5-2, variando para o 3-6-1 e 3-4-3, o Santos foi 3-5-2 retrancando pela zaga. A posse de bola foi 29% contra 71% do Barça, ou seja, Santos não jogou.
A partida foi uma verdadeira aula do futebol moderno e mostrou nossas fragilidades. Na mente e coração, logo vem o complexo de “vira lata” e pensamentos confusos, do tipo: “eles tem mais grana que agente“, “pressão política“, “CBF corrupta“ – mas, Espanha atualmente está quebrada, dos 11, 9 craques foram formados na base, eles mantém uma cultura de trabalho a anos.
Sinceridade, 4×0 foi pouco!
Então Santos amarelou? Ainda bem que não foi o São Paulo! rs.
Vida em rede
Hoje o mundo vive conectado nas redes, numa lógica coletiva e colaborativa. O pensamento plural é mais importante do que o individual. Esta lógica também é aplicada em grandes empresas modernas, como Google, que optou por fazer horizontal hierarquias e processos produtivos antes verticais. O resultado? Coisas surpreendentes! Imaginou esta cultura dentro de campo? Barcelona faz.
A lição
Para o técnico campeão do mundo, Pep Guardiola, a resposta está no próprio futebol brasileiro. “Não é isso o que o Brasil fazia?”, indagou. “O Barcelona passa a bola como meu pai falava que vocês (brasileiros) faziam”, discursou após título.
Quais os desafios?
Na minha opinião, o jogo representou em campo o melhor time do Brasil, com os melhores jogadores, melhor técnico, melhor campanha como clube, as melhores jogadas… o problema foi contra quem jogamos, o nosso melhor está muito aquém do futebol europeu e abriu espaço para muitas coisas que precisam ser repensadas.
Tá na hora de ver o futebol brasileiro além das glórias do passado da camisa amarelinha. Ele não pode mais ser pensado como fábrica de refrigerantes, que enlata e rotula conteúdo. Futebol é mais do que isso… é um esporte visto como elemento constitutivo da nacionalidade com contribuições em nossa formação social (ver Gilberto Freyre).
Hoje, futebol brasileiro é um mix de irresponsabilidade individualista de craques celebridades, somado a moralidades religiosas, visível por todos na era Dunga. Ambas as facetas do nosso esporte são em boa parte produto histórico de um tratamento paternalista dado por dirigentes, técnicos e grande imprensa em relação aos atletas, além de distorções provocadas pelo marketing da bola.
Técnicos são verdadeiros chefes de produção, simplificam seu trabalho entre montar uma boa defesa e tentar no contra ataque, usam a bola parada como especialidade e justificam o medíocre trabalho na instabilidade do cargo que ocupam, que terá validade condicionado em passar para próxima fase com alguns pontinhos.
Os clubes não ligam mais para as categorias de base e apostam em talentos a partir de critérios físicos e midiáticos. Voltam velhos bons jogadores que pouco estimulam o nosso futebol, somente pela fama e o nome para o clube poder arrecadar mais verba.
Sem contar o intocável Ricardo Texeira e seus comparsas, que a cada dia aparecem denúncias de corrupção, mas “nem Deus tira ele do cargo” conforme suas próprias palavras.
Concluindo, a atuação do Barcelona não foi somente um banho de bola, estampou para o mundo quais são os dilemas e desafios para o nosso futuro. Não temos um pequeno problema de “entressafra” de jogadores e sim uma crise de concepção, valores e identidade – do jeito que está, estamos muito longe de ter uma seleção que possa ser campeã do mundo.
Talvez o futuro do futebol brasileiro esteja no futebol do futuro mostrado pelo Barcelona.
O que você pensa sobre as perspectivas do nosso futebol?










4 comentários
Nilson Machadodisse:
10/01/2012 em 18:03 (UTC 0)
Daniels …
Como CORNETEIRO que sou, deixo alguns pontos que deixariam ainda melhor o seu ótimo post sobre o tema:
- O Sr. Muricy não tem humildade nenhuma;
- O melhor Jogo do Ano no Brasil foi protagonizado por Santos x Flamengo por conta de duas zagas horríveis;
- Neymar e Ganso precisam ir embora do Brasil pra aprender um futebol coletivo que Messi, Xavi e Iniesta jogam no Barcelona;
- Qualquer time do planeta perderia esse mundial para o Barcelona.
Daniel Bryandisse:
15/01/2012 em 10:02 (UTC 0)
Fala Nilson,
Penso que faltou mais empenho por parte do Muricy e o time, pois sabiam que iriam enfrentar “o todo poderoso Barcelona”. Falta de humildade é não reaprender, reprogramar, estar suscetível ao novo. Acho que a lição serviu para todos.
Concordo sobre o melhor jogo Santos x Flamengo e ká entre nós, o bom duelo foi protagonizado por dois times brasileiros de grandezas equilibradas (cultura, financeiro e técnico). A discrepância vem quando pegamos futebol de fora.
Sobre jogadores ir embora, por exemplo o caso do Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Daniel Alves e tantos outros que vão e quando vestem a amarelinha nada fazem! Será que a lógica de exportar jogadores com o discurso de trazer recursos para o Brasil e aprender a cultura em campo gringa precisa ser repensada? Parece que criamos jogadores, enlatamos, rotulamos e mandamos para fora… e pra gente, qual o verdadeiro retorno para futebol? Também cabe uma outra visão: permanência de Neymar e Ganso é uma quebra de paradigma e inaugura um novo modelo?
Este futebol coletivo é difícil… parece que todo o esquema tático do modelo do nosso futebol é voltado para o individual. Agente aplaude quando surge um jogador que corta o campo todo sozinho e termina com um gol. Chamamos isso de elemento surpresa, o cara criativo que decide!
Concordo, qualquer outro time dificilmente venceria Barcelona. Vimos isso no jogo com o Real. Mas estes bons jogos tornam-se grande oportunidade para treinar, testar, avaliar. Você chegou ver a nova agenda para Seleção em 2012? Não desmerecendo os adversários, nenhum grande time, péssimo para o Brasil.
Vou ficando por aqui.
Valeu por tudo!
Forte abraço.
Raqueldisse:
14/01/2012 em 12:25 (UTC 0)
Oi Daniel, parabéns pelo post. Quero deixar aqui minha opnião sobre o assunto.
O jogo foi desequilibrado. Porém acredito que o resultado não foi tão negativo já que o Santos não disputava um mundial há muito tempo. Chegou lá e perdeu, minha opinião? Faz parte.
A mídia deslumbra alguns jogadores mesmo, mas a verdade é que Neymar com seu otimismo e jeitinho brasileiro, fez pelo futebol brasileiro aquilo que os nossos jogadores “milionários” já não faziam há tempos. O resultado foi o prêmio de gol mais bonito do mundo concedido pela Fifa. Ok, o Messi tem a técnica mas nós temos o coração. Afinal, no país do futebol Deus é brasileiro.
Daniel Bryandisse:
15/01/2012 em 10:16 (UTC 0)
Olá Raquel,
Obrigado pela participação.
O jogo foi beeeeeem desequilibrado mesmo. Continuando a sua boa visão otimista, talvez o Santos sirva de exemplo para os demais clubes brasileiros, por ter conseguido manter seu elenco, a excelente campanha, contratações, estilo ofensivo de jogar e tudo mais de bom que apresentou.
A permanência de Neymar e Ganso também foi muito interessante e importante.
O lado negativo é que muita coisa precisa mudar para que o Brasil volte a ter uma seleção digna de ser campeã no mundial. Este jogo mostrou isso de um lado, doutro, Santos teve seus méritos e os resultados foi o 2o lugar no mundo.
Se conseguirem aliar o jeitinho brasileiro, garra, técnica e resultado… volta o futebol arte que o Brasil sempre teve!
Vamos torcer para que haja uma transformação.
Fico por aqui.
Beijos.